Ciência na investigação de crimes com armas de fogo: RS ultrapassa 500 ligações confirmadas no Sinab
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Nenhuma arma de fogo deixa no projétil exatamente as mesmas marcas que outra, por mais que sejam fruto de processos industriais em larga escala. É essa característica que permite que os especialistas do Instituto-Geral de Perícias (IGP) liguem os vestígios do tiro às armas que dispararam. Foi com base nesse princípio que o Rio Grande do Sul superou, em 7 de outubro, a marca de 500 ligações confirmadas no Sistema Nacional de Análise Balística (Sinab). O resultado é da Divisão de Balística Forense do IGP.
No Sinab, uma ligação confirmada, também chamada de “hit”, acontece quando os peritos identificam, depois de análise e validação, que vestígios de ocorrências diferentes foram produzidos pela mesma arma. A conexão vale mesmo quando os crimes ocorreram em municípios ou estados distintos. Em casos sem suspeitos definidos, o vínculo pode mudar os rumos da investigação, ao mostrar que a mesma arma foi usada em mais de um crime ou ao identificar a arma envolvida em um deles.
Evolução
O sistema foi implantado na Divisão de Balística Forense em julho de 2022, e os números crescem a cada ano. Foram quatro ligações em 2022, 52 em 2023, 93 em 2024 e 159 em 2025. Em janeiro de 2026, o total acumulado chegava a 308 ligações, associadas a 235 armas relacionadas a crimes. Em pouco mais de nove meses, o Estado somou quase 200 novas confirmações até atingir as 500.
Para o chefe da Divisão de Balística Forense, perito Jonathan Tobias Ramos, o resultado vai além da tecnologia. “Alcançar essa marca exige mais do que recursos tecnológicos”, afirma.
“O trabalho depende do conhecimento técnico da equipe, da experiência na análise microscópica dos vestígios e do rigor na avaliação das correspondências que o sistema aponta. Os materiais são processados com cuidado, as informações disponíveis são analisadas e os resultados passam por validação pericial, etapas que transformam dados em evidências úteis à investigação”, explica.
O perito destaca que o valor desse trabalho está em relacionar ocorrências que, à primeira vista, parecem isoladas. “Cada correspondência confirmada pode representar uma nova conexão entre fatos investigados”, diz Tobias. Com isso, o laboratório fornece subsídios técnico-científicos às autoridades responsáveis pela apuração.
O desempenho se reflete nos indicadores do sistema. O IGP ocupa o primeiro lugar do país em dois dos três critérios avaliados pelo Sinab: número de inserções e de correlações balísticas. Desde janeiro de 2022, são mais de 17,1 mil inserções e 35,6 mil correlações visualizadas. Em 30 de junho de 2025, eram 11.361 inserções e 20.501 correlações. Em pouco mais de um ano, as inserções cresceram cerca de 51% e as correlações, cerca de 74%.
Coordenado pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP), o Sinab integra os bancos de dados balísticos de todo o país. As informações sobre projéteis e estojos recolhidos em locais de crime ou em armas apreendidas são inseridas no sistema, o que permite identificar correspondências entre ocorrências, armas e suspeitos. Essas ligações também podem revelar padrões de criminalidade e a circulação de armas entre os estados.